
Gaby Amarantos/Divulgação
Gaby Amarantos é a rainha da selva. Mas esqueça a pegada rústica de Sheena e preste atenção na capa de Treme (Som Livre), CD de estreia solo da cantora e compositora paraense que ganhou popularidade à frente da banda TecnoShow. Na imagem, ela posa envolvida pela mata e por caixas de som, com roupas brilhantes, expressão de fera, raios laser saindo dos mamilos e uma coleira de luzes com uma pantera negra presa a ela.
É essa selva que se ouve ali. Um ecossistema onde convivem harmoniosamente merengue e Kraftwerk, tecnopop e brega, percussão indígena e funk carioca. É a mistura defendida em Mestiça e Pimenta com sal. Ambas, aliás, materializam sua mestiçagem nas convidadas de Gaby. Na primeira, o calor da tradição do chamegado de Dona Onete; na outra, a "branca" nipo-amapaense Fernanda Takai, sal que combina com a pimenta da paraense.
Não há pureza etnográfica, portanto. Quando lista tribos em Mestiça ("Os mundurucus/ Tembés e caripunas/ Jurunas") há ecos do mapeamento cultural e afetivo de um Endereço dos bailes, dos MCs Júnior e Leonardo. E, apesar das batidas outras, é difícil não pensar no funk carioca também em Galera da laje, com particpação de Maderito. Como nos morros cariocas, é a eletrônica como tambor — som de preto, de favelado e, aqui, de caboclo.
Se, na década de 1990, o movimento mangue beat cravou uma parabólica (aberta ao mundo, mas só como receptora) no mangue, Gaby encarna a web 2.0. Chega com pose de conquistadora, dominatrix tropical e pós-moderna, voz grande e quente, lançando lasers e apelo sensual — "Quem viu uma branca e uma preta/ De mãos dadas na praia/ provocando frisson", "Gemendo você vem e me diz/ My love, I’m crazy for you", "Vem me amar/ Eu já tô indo amor".
Além do pop-rock de Takai, da nova MPB de Thalma de Freitas e Iara Rennó (autoras da ótima Chuva, que honra a tradição das canções-de-chuva de Jorge Ben Jor, Chove chuva e Que maravilha) e de autores do Norte (como o brega Alípio Martins e o poeta Eliakin Rufino), a rede da cantora estabelece links com o romantismo sertanejo, em Coração está em pedaços, de Zezé Di Camargo. Mas há pouco espaço para sofrimento nas letras encharcadas de hedonismo, como Ela tá beba doida e Eira.
A sonoridade construída por Miranda (diretor musical), Félix Robatto (produtor) e Waldo Squash (alquimista dos beats que unem apelo popular e experimentalismo) e sustentada por uma banda "de verdade" refina a espontaneidade original de Gaby, sem perdê-la. O resultado técnico não faz feio frente a Lady Gagas, Beyoncés e outras "concorrentes".
"Concorrentes" e inspirações, diluídas entre milhões de outras em Gaby, que, autêntica, brinca com o tema da autenticidade aplicado ao seu universo, em Ex mai love (na novela Cheias de charme) e, indo mais longe, em Xirley: "Eu vou samplear, eu vou te roubar". A lei da selva, enfim.
Por Leonardo Lichote, da Agência O Globo
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